Promotoria na Bolívia ordena a prisão de Evo Morales: quais acusações ele enfrenta e por que o ex-presidente denuncia uma 'brutal guerra judicial'

  • 30/07/2026
(Foto: Reprodução)
O ex-presidente Evo Morales denuncia ser vítima de uma perseguição orquestrada pelo atual governo da Bolívia. Getty Images Os desafios judiciais para o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, não param de aumentar. Nesta quarta-feira (29/7), a Promotoria Departamental de Santa Cruz emitiu uma ordem de prisão contra ele por supostamente incentivar a recente onda de protestos e bloqueios de estradas que paralisaram o país por mais de 50 dias. Não é a primeira vez que a Justiça boliviana ordena a detenção de Morales. O ex-governante de esquerda, que esteve à frente do país entre 2006 e 2019, rejeitou as acusações e denuncia que elas fazem parte de uma "perseguição política" promovida pelo atual governo do direitista Rodrigo Paz. "Buscam nos responsabilizar pelas mobilizações sociais para ocultar o verdadeiro drama que vive a Bolívia: uma profunda crise econômica e social, fruto de um modelo que abandonou o povo e protege a corrupção", escreveu o ex-presidente, de 66 anos, em sua conta no X. "Não vão nos intimidar. Continuaremos lutando junto ao povo", advertiu. Por sua vez, o governo de Paz refutou as acusações de Morales. "Não é o governo que emite a ordem de prisão, é a Justiça", declarou José Luis Gálvez, porta-voz do presidente Paz, ao jornal boliviano "El Deber". LEIA TAMBÉM: Presidente da Bolívia reduz seu salário em 50% em meio a protestos no país Agora no g1 As acusações A Promotoria boliviana acusa Morales da suposta prática de seis crimes: levante armado contra a segurança e a soberania do Estado, terrorismo, atentado contra a segurança dos meios de transporte, associação criminosa, instigação pública ao crime e atentado contra a segurança dos serviços públicos. Somente os crimes de terrorismo e levante armado atribuídos ao ex-mandatário preveem penas máximas de 20 e 30 anos de prisão, respectivamente, de acordo com o estabelecido no Código Penal boliviano. A investigação contra Morales teve início a partir de uma denúncia do Comitê Pró-Santa Cruz, uma associação que reúne grupos empresariais, setores laborais, federações provinciais e associações locais do Departamento de Santa Cruz, à qual posteriormente se somou o ministro de Governo (cargo que no Brasil seria equivalente ao ministro da Justiça e Segurança Pública), Marco Antonio Oviedo Huerta, segundo meios de comunicação locais. "Ele tem que vir explicar qual foi seu papel nos 53 dias (de bloqueio de estradas), explicar por que deu as declarações que deu, por que se responsabilizou, porque foi ele quem disse que estava praticamente no comando das ações", afirmou Gálvez. O ex-presidente Evo Morales denuncia ser vítima de uma perseguição orquestrada pelo atual governo da Bolívia. Jorge Mateo Romay Salinas/Anadolu via Getty Images Morales, por sua vez, justificou as manifestações como ações legítimas de protesto contra medidas econômicas adotadas pelo governo de Paz, bem como contra a inflação e a escassez de combustível. "(No passado) com bloqueios de estradas recuperamos a democracia. Os bloqueios de estradas derrotaram o Plano Condor e derrotaram as ditaduras militares", declarou em junho. Embora tenha negado que buscasse forçar a saída de Paz da Presidência, em 24 de maio Morales escreveu na rede social X que o mandatário tinha apenas "dois caminhos" diante dos conflitos: "militarizar" o país ou convocar eleições nos próximos 90 dias, relatou a agência de notícias espanhola EFE. Os protestos registrados entre maio e junho não apenas provocaram um grave desabastecimento de medicamentos, combustível e alimentos em cidades como La Paz e El Alto, mas também deixaram 22 mortos, 88 feridos e 573 presos, segundo um relatório que a Defensoria do Povo da Bolívia, agência estatal autônom que promove a defesa de direitos humanos, apresentou no início de julho. De acordo com o relatório, a maioria das mortes (11) ocorreu em acidentes de trânsito registrados quando as vítimas tentavam superar os bloqueios; três aconteceram em confrontos entre manifestantes e integrantes das forças policiais e militares; e outras três pessoas morreram enquanto tentavam chegar a hospitais. Morales está entrincheirado há mais de dois anos em Chapare, onde é protegido por centenas de seus simpatizantes. Marcelo Perez del Carpio para o The Washington Post via Getty Images Outra ordem de prisão Em 2024, a Promotoria emitiu uma primeira ordem de prisão contra Morales, desta vez pelos crimes de tráfico de pessoas, que foi renovada em meados de 2025. Segundo a instituição, as acusações surgiram em razão da suposta relação que o ex-governante teria mantido com uma menor de idade durante seu último mandato, em 2015, com quem supostamente teve uma filha. O ex-presidente negou as acusações e, na ocasião, disse que o então presidente do país, seu antigo aliado Luis Arce, estava iniciando uma "brutal guerra judicial". O julgamento começou em maio passado, mas precisou ser interrompido devido à ausência de Morales, que permanece entrincheirado na região cocaleira de Chapare, no departamento de Cochabamba, seu reduto político no centro do país. "Só faltou ordenarem meu esquartejamento imediato em uma praça, como ocorria na Colônia, quando os conquistadores castigavam severamente os indígenas que se rebelavam contra a opressão", declarou em janeiro de 2025, quando foi declarado foragido. Morales está protegido por "2 mil pessoas, todos os dias e 24 horas por dia", assegurou à agência AFP Vicente Choque, da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia e um dos homens mais próximos do ex-chefe de Estado. "Morales tomou as precauções para criar um cerco humano e não queremos colocar em risco a vida das pessoas", afirmou o porta-voz presidencial.

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/07/30/promotoria-na-bolivia-ordena-a-prisao-de-evo-morales-quais-acusacoes-ele-enfrenta-e-por-que-o-ex-presidente-denuncia-uma-brutal-guerra-judicial.ghtml


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